Conto em e-book: Terça-feira

Testando e aprendendo, todo designer sobrevive de criatividade e curiosidade. Tendo isso em mente, reuni essas duas qualidades para a criação de um e-book no formato epub, o qual vocês poderão baixar gratuitamente e ler em seu e-reader favorito. O único pagamento que eu peço é algum retorno do que acharam do conteúdo. Foi testado e está funcionando no iPad, iPhone e no sistema Android. A capa e uma imagem de divulgação também foram projetadas por mim. Claro que a mídia ainda não está perfeita mas estou trabalhando para o melhor. Para baixar o arquivo, basta clicar na capa do livro abaixo que abrirá uma nova aba com o site de download.

Caso você não tenha um leitor de epub ou apenas queira ler o conto no seu navegador clique em continue lendo logo abaixo para ler aqui mesmo.

Boa leitura! 🙂

TERÇA-FEIRA

Era noite e a lua-cheia lançava a sua luminosidade pálida e azulada recobrindo o deserto com uma fina membrana de luz azul, contornando as colinas arenosas que mantinham-se deitadas esparsas ao redor da estrada, como gigantes de pedra adormecidos. A estrada estendia-se infinitamente ao horizonte, sendo engolida pela escuridão do céu estrelado. A lua brilhava, sozinha e melancólica, vigiando todos os que passassem por baixo dela. O vento seco e fresco fazia nuvens de areia se levantarem e recobrirem toda superfície homogeneizando ainda mais o solo desértico.

O silêncio e a tranqüilidade profunda eram quebrados apenas por uma profusão de sons que passavam voando pela estrada, trazendo vida para aquele lugar estéril. Um borrão vermelho tingia uma linha que corria em direção ao infinito da estrada cortando as sombras com um farol potente e quebrando o silêncio com um solo de guitarra fervoroso. O rugido do motor completava a música com seu ronco constante de centenas de cavalos galopando em um solo arenoso. Um homem cantava lentamente sobre ser Livre Como Um Pássaro, enquanto o solo acompanhava melodiosamente a sua canção.

Com a capota abaixada ele seguia dirigindo de olhos fechados, o vento acariciava-lhe o rosto fazendo seu cabelo rebelde voar contra o vento. Dirigia instintivamente deixando que a estrada o leva-se em suas curvas, rumo ao horizonte. Ele corria do que havia deixado para trás. A barba por fazer refletia a urgência da epifania que lhe foi conferida.

Naquela noite, ao analisar tudo que tinha, percebeu que as únicas coisas que precisaria seriam o seu carro, um Chevelle conversível 71 vermelho escarlate com duas linhas pretas cortando o capô na vertical, e um par de óculos escuros. Saiu logo no início da noite para que não o vissem, e pretendia dirigir até o amanhecer.

O céu estrelado era reconfortante, imensamente calmo e iluminado. Perguntou-se a quanto tempo vinha naquela vida onde dormia durante o dia e, à noite, caía em tentações. Estava dirigindo sempre em frente, para aquele verão onde encontrara o amor de sua vida. Ainda lembrava-se do seu aroma, vago, distante, porém mantinha-se presente em sua memória, guardado junto de seu sorriso e olhos verdes.

Já faziam algumas horas que ele dirigia, e um considerável número delas que não via civilização, o que era ótimo. Não agüentava mais aquela constante corrida pela fama, homem pisando em homem. As pedras empilhadas nos montes de areia eram reais, verdadeiras, não havia sofrido nenhum tipo de alterações para que ficassem mais bonitas ou aceitáveis, elas apenas eram. Aquele era o lugar perfeito para a sua fuga: sem testemunhas, vítimas ou tentações. Cercado pela realidade quase obscena do deserto que não poupava nem mesmo o asfalto que lhe cortava as faces, o enchendo de desníveis e buracos para que o mesmo acabasse sendo assimilado pela paisagem. Ele sentia-se como a estrada, correndo da civilização sem rumo, em direção ao infinito.

Perto da cachoeira se viu jovem, acanhado e sonhador, olhando para uma menina que o chamava em sua direção. Com passos trôpegos e cuidadosos foi até ela, apenas para ser surpreendido na metade do caminho por um longo beijo roubado. Mais uma vez aquele sorriso, os lábios dela ainda úmidos, e então saiu correndo em direção a floresta. Enquanto se via ali, parado, sabia que o coração daquele jovem estava acelerado e que não dormiria aquela noite sem antes se lembrar diversas vezes desse primeiro beijo e, quando finalmente adormecesse, sonharia com ela.  Era uma terça-feira.

Acordou um tempo depois ajeitando o volante, mas ainda na estrada; devia ter cochilado por pouco tempo. A noite agora era absoluta, a lua brilhava no topo de sua cabeça iluminando a estrada com sua luz azulada. Ele desligou os faróis. Assim que seus olhos se acostumaram, podia ver o deserto e toda sua extensão. As estrelas estavam muito mais numerosas agora, havia esquecido como todas aquelas luzes artificiais ofuscavam as reais cores do céu. A última vez que o vira assim foi naquele verão.

Lembrava de como eles haviam se separado nesse mesmo verão, cada um para a sua cidade. Depois de um tempo descobriu onde ela morava com os pais e foi visitá-la. Pegou dois ônibus e caminhou por inúmeros quarteirões até achar a sua casa. Esperou por ela durante algumas horas, com uma expectativa que subia pela garganta e esmagava os pulmões. Queria fazer uma surpresa, esperando na frente de sua casa; achou que talvez devesse ter comprado flores, mas resolveu colhê-las frescas. Assim que ele a viu passar na esquina seu coração deu um pulo, linda como sempre, havia prendido o cabelo com uma presilha que segurava suavemente seus cachos castanhos e rebeldes. Pensou em correr e abraçá-la, enchê-la de beijos mas, assim que ela se aproximou mais, viu que estava acompanhada por dois outros meninos de sua idade. Estavam andando lado a lado, como amigos, mas na época lhe pareceu a coisa mais assombrosa do mundo. Envergonhado pela sua ingenuidade, saiu correndo na direção oposta sem se apresentar ou sequer ser notado por ela, voltando rumo a sua casa.

O céu estava assim naquele mesmo dia, brilhante e cravado de pequenos diamantes que cintilavam o consolando e dizendo: “tudo vai dar certo”. O vento frio secava as lágrimas que escorriam pelos seus olhos deixando pequenas marcas em seu rosto. Nunca amara tanto alguém, tão pura e sinceramente, com os olhos de quem encara o céu estrelado pela primeira vez.

– A Terça-feira Se Foi. – Disse ele para a imensidão do deserto.

Desde então havia canalizado as suas angústias nas músicas, tristes canções de amor e longos odes à paixão. Não demorou muito e foi descoberto por uma gravadora que divulgou suas músicas, o fazendo relativamente famoso. Mudou-se para a capital longe dos pais, onde a tristeza se uniu ao álcool fazendo suas noites longas e dias curtos.

Tirou debaixo do banco de passageiro uma garrafa de bourbon: abriu-a com os dentes, que fizeram um leve arranhão na tampa. Cheirou o conteúdo, um aroma forte e encorpado, e o jogou por cima do ombro na estrada. A garrafa explodiu no solo arremessando pequenos cacos para todos os lados, manchando de escuro o asfalto. Se fosse fazer o que estava planejando, queria fazer isso completamente sóbrio. Ele nunca fora muito religioso, mas naquele noite pediu a Deus que o ajudasse a cumprir a sua tarefa. Tudo o que ele queria ser era um Homem Simples novamente… como naquela música.

Aos poucos a sua fama começou a se propagar e diversas moças batiam à sua porta pedindo por autógrafos e algo mais. No inicio sempre autografava os discos com um sorriso no rosto e as recebia, mas após algum tempo reparou na falsidade daquelas pessoas: estavam sempre interessadas nele, não pelo seu talento ou personalidade, e sim sua fama. Deixou de atender pedidos ou conversar com suas fãs. Recluso em seu apartamento, saía apenas para fazer compras e gravar. Regularmente mandava uma quantia em dinheiro para sua família junto com uma carta, que ele acreditava ser mais pessoal que telefones, comentando como estava sua estadia na capital. Após algum tempo recebeu a visita de uma moça. Já era tarde, o horário que esse tipo de menina já deveria estar confortavelmente aninhada em baixo de seus edredons macios. Abriu a porta e foi imediatamente encantado por ela, seu cabelo negro e liso chegando à cintura, os olhos castanhos a tornavam muito atraente. Perguntou o que ela fazia fora aquela hora da noite e recebeu a resposta que queria ouvir: vim te conhecer. Olhando para ele com aqueles grandes olhos amendoados havia o deixado tão sem jeito que esquecera de convidá-la para entrar. Assim que foi convidada entrou sem grandes cerimônias, sentando-se no grande sofá da sala. Aquela noite conversaram sobre tudo, a vida, suas canções, que ela conhecia muito bem, e sobre música. Ficou espantado com a quantidade de conhecimento musical que uma menina daquela idade conseguira adquirir. Ela foi embora já era quase dia e prometeu voltar na próxima noite. Fazia tempo que ele não sentia aquele calor no peito e expectativa. Ela estava sendo sincera, e ele sabia disso, ela o queria pelo que ele era.

Pelo tempo que estava dirigindo, imaginou que não faltaria muito para começar a amanhecer. Continuava sua viagem com o som do rádio ainda muito alto, reconheceu uma música sua e trocou de estação. Mais uma vez, guitarras reconfortantes vieram acompanhá-lo em sua jornada. A lua ia se despedindo ao horizonte lentamente, escondendo-se por trás das montanhas. A noite continuava escura. O ronco do motor o acalmava, seu constante som dava a impressão de um enorme gato ronronando aos seus pés e, caso fosse necessário, rugiria como um tigre. O carro que estava muito bem conservado para a sua idade estava apenas sujo em algumas partes devido a sua falta de cuidado recente, mas mantinha-se praticamente novo. Ele havia comprado o carro logo que  começara a fazer sucesso e conseguiu um dinheiro extra. Era um sonho que virava realidade; mantinha-o sempre limpo e com peças novas e cuidadas. Até ela chegar em sua vida…

Lembra-se das noites em que ela o visitava e os dois saiam pela madrugada para andar em seu carro. Ela sempre pedia para que abrisse a capota e fechasse os olhos, assim eles poderiam saber como era a sensação de voar. Por mais que fechasse os olhos, ele sempre espiava seus longos cabelos negros dançando ao vento. Após alguns dias, ela perguntou a ele se gostaria de experimentar algo novo. Algo que ele nunca havia imaginado. Além do álcool foram pouquíssimas as drogas que havia experimentado. A principio ficou meio apreensivo mas após algum tempo cedeu. Como ele poderia dizer não àquele par de olhos castanhos? A primeira vez foi dolorido, mas depois de algum tempo tudo pareceu flutuar para longe e aí veio o êxtase. Após isso ela vinha quase todas as noites ao seu encontro: os dois mantinham-se entorpecidos e algumas vezes ela trazia amigas, todas aparentavam ser muito mais jovens do que diziam. Foram poucas, mas já eram o suficiente para atormentá-lo.

– Pobres meninas. – Ele dizia para si mesmo agora que a distância e abstinência o permitiam pensar com clareza.

O céu começava a se inflamar no horizonte, a noite tornava-se levemente arroxeada e uma fina linha âmbar começava a crescer no céu. Ele colocou seus óculos escuro, Ray-Ban com aro dourado, preparando-se para receber o sol pungente. Aumentou a velocidade para não dar meia volta e desistir.

Ele já não saía ou sequer acordava de dia, vivia apenas à noite, entorpecido, alterado, fora de si. Não mandava mais cartas para seus pais, nem mesmo ia à gravadora. Não atendia a porta ou o telefone, havia se escondido em seu mundo particular, com ela.

O âmbar crescia imponente no horizonte, logo, logo o sol surgiria por de trás das montanhas e acabaria com tudo aquilo. Ele pensa que nada disso teria acontecido se tivesse encarado seus medos e ido atrás do seu amor de juventude. Sempre encontrou problemas ou colocou outras prioridades na frente, estudos, carreira, quando na realidade tinha medo de encontrá-la com outro e não suportar a dor. Se pelo menos tivesse tido mais coragem. As conseqüências dos seus atos agora pesavam em seus ombros, junto com o sol radiante as verdades de sua vida foram se revelando; desperdiçou sua vida na bebida e, por fim, caiu na perdição.

Na noite anterior havia partido antes que ela chegasse, pegou apenas o necessário e fugiu daquela vida maldita. Dirigiria até o amanhecer onde talvez alguém o estivesse esperando, nunca acreditou em segundas chances mas agora era uma ótima hora para começar.

O sol começava a nascer no horizonte, o céu agora era laranja vivo. Um ímpeto incontrolável quase o fez sair da estrada, porém ele mantinha suas mãos firmes no volante, transpirando por todos os poros ele continuou a acelerar. Queria ser puro novamente, não suportava no que havia se tornado, já lera em diversos livros e vira em diversos filmes e sabia que aquilo iria funcionar, algo dentro dele o avisava. A primeira faísca de sol desprendeu-se do horizonte tocando a sua pele, a dor foi lancinante mas ele mantinha-se firme. Pouco a pouco o sol foi surgindo no horizonte, a luz tocava a sua pele pálida e fazia manchas negras surgirem e logo arderem em chamas. A guitarra continuava seu solo furioso ao fundo enquanto o fogo se espalhava pelo seu corpo a mercê do sol, que brilhava titânico sobre sua cabeça. Estava funcionando e finalmente conseguiria acabar com aquilo tudo. A pele do rosto começou a queimar revelando os caninos protuberantes até que, não agüentando mais a dor, apagou.

Foi acordado algumas horas depois por um abutre que havia pousado ao seu lado, no banco de passageiros. Olhava-o como se estivesse analisando se ele estava morto ou vivo, comida ou não. A ave virou-se e saiu voando, respondendo qualquer dúvida quanto o seu estado atual. O Sol brilhava forte no céu tocando a pele dele carinhosamente a mantendo morna. Saiu do carro e viu que resquícios de cinzas na estrada, como as deixadas por pneus queimados. Ao seu lado havia um placa, dizendo que estava a 15 km de uma cidadezinha do interior. Por alguns instantes não acreditou que havia dirigido todo esse tempo naquela direção. Talvez alguma parte do seu subconsciente ainda acreditava em algum tipo de segunda chance. Entrou no carro e dirigiu rumo a cidade, dessa vez ele iria fazer a coisa certa. Ao olhar em seu relógio de pulso não se surpreendeu ao ver o dia.

– As terças-feiras voltaram.

Leonardo Sarmanho  25/01/2011


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